Ricardo Aquino Coimbra
Economista, Acadêmico e Diretor Financeiro da ACE, Membro do Conselho Regional de Economia do Ceará e Conselheiro da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais do Brasil (Apimec).
Célio Fernando Bezerra Melo
É economista. Atua como vice-presidente da Academia Cearense de Economia. Atualmente é sócio da BFA Investimentos, Consultor do MEC/Nações Unidas. Experiência profissional abrange vice-presidente da APIMEC-Brasil, consultor do Banco Mundial. Prêmios Nacionais: Profissional de Investimentos, Especial ESG e Instituto Chico Mendes.)
Resumo
Este artigo analisa os elementos estruturantes do modelo de desenvolvimento industrial e tecnológico da China, conforme discutido por Wang e Kroeber (2025), e propõe uma reflexão sobre sua aplicabilidade ao contexto brasileiro. A partir da identificação de pilares como infraestrutura profunda, conhecimento técnico e planejamento estatal de longo prazo, argumenta-se que o Brasil possui potencial latente para construir uma estratégia nacional de desenvolvimento, desde que supere seus entraves institucionais e adote uma abordagem sistêmica. O estudo é fundamentado em literatura acadêmica sobre política industrial, inovação e infraestrutura, com o objetivo de contribuir para o debate sobre soberania econômica e tecnológica no Brasil.
Palavras-chave: política industrial, desenvolvimento econômico, China, Brasil, infraestrutura, inovação.
Abstract
This article analyzes the structuring elements of the industrial and technological development model of China, as discussed by Wang and Kroeber (2025), and proposes a reflection on its applicability to the Brazilian context. By identifying pillars such as deep infrastructure, technical knowledge, and long-term state planning, it is argued that Brazil has latent potential to build a national development strategy, provided it overcomes its institutional barriers and adopts a systemic approach. The study is based on academic literature on industrial policy, innovation, and infrastructure, with the aim of contributing to the debate on economic and technological sovereignty in Brazil.
Keywords: industrial policy, economic development, China, Brazil, infrastructure, innovation.
¹ Economista, Vice-Presidente da Academia Cearense de Economia.
² Economista, Acadêmico e Diretor Financeiro da ACE, Conselheiro Corecon-Ce e Apimec Brasil.
Introdução
A ascensão da China como potência industrial e tecnológica global constitui um dos fenômenos mais marcantes da economia contemporânea. Conforme argumentam Wang e Kroeber (2025), o êxito chinês não pode ser atribuído exclusivamente a práticas como subsídios estatais ou apropriação de propriedade intelectual estrangeira. Ao contrário, trata-se de uma estratégia nacional deliberada, sustentada por investimentos maciços em infraestrutura física e digital, formação técnica da força de trabalho e políticas industriais de longo prazo. Essa abordagem sistêmica contrasta fortemente com os modelos ocidentais, frequentemente fragmentados e reativos.
No contexto brasileiro, marcado por ciclos de crescimento instáveis e políticas econômicas descontinuadas, o modelo chinês oferece uma referência estratégica relevante. O Brasil, embora dotado de abundantes recursos naturais e capital humano expressivo, permanece limitado por gargalos estruturais e ausência de coordenação institucional. A questão central que se impõe é: como adaptar os princípios do modelo chinês à realidade brasileira, respeitando suas especificidades e potencialidades?
- O Modelo Chinês: Infraestrutura, Conhecimento e Planejamento
O chamado “modelo chinês” é caracterizado por uma combinação de elementos estruturantes que, articulados, criam um ecossistema propício à inovação e à produção industrial em larga escala. Wang e Kroeber (2025) destacam cinco pilares fundamentais: infraestrutura física e digital de alta qualidade; rede elétrica eficiente e de baixo custo; força de trabalho industrial com conhecimento de processo acumulado; política industrial coordenada e persistente; e cultura empreendedora orientada ao risco e à escala.
A literatura acadêmica corrobora essa visão. Silva (2022) analisa o papel do Estado chinês como “orquestrador do desenvolvimento”, enfatizando sua capacidade de promover sinergias entre governo, universidades e setor produtivo. Essa articulação é essencial para a consolidação de cadeias produtivas complexas e para a internalização de tecnologias estratégicas. Além disso, o modelo chinês incorpora uma lógica de planejamento de longo prazo, com metas claras e investimentos sustentados, o que contrasta com a volatilidade das políticas públicas em países como o Brasil.
- O Brasil Hoje: Potencial Latente, Estratégia Ausente
O Brasil dispõe de atributos estruturais que poderiam ser mobilizados para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento tecnológico e industrial. Entre esses atributos destacam-se: recursos naturais abundantes, incluindo fontes renováveis de energia; uma população jovem com elevado potencial de capacitação; uma base industrial existente, ainda que enfraquecida; e posição geopolítica estratégica no cenário global.
Contudo, como demonstram Giesteira, Caliari e Teixeira (2022), as políticas industriais brasileiras têm sido marcadas por descontinuidade, baixa efetividade e ausência de articulação interinstitucional. A infraestrutura nacional apresenta deficiências graves, especialmente em logística e energia, comprometendo a competitividade das empresas. De Negri e Salerno (2014) reforçam essa análise ao evidenciar que o desempenho das firmas industriais está diretamente relacionado à capacidade de inovar e de se inserir em cadeias produtivas sofisticadas, o que exige políticas públicas estáveis, infraestrutura adequada e capital humano qualificado.
- O Brasil que Deveria Ser: Propostas para um Projeto Nacional
A partir da análise do modelo chinês e da realidade brasileira, é possível delinear um conjunto de propostas estruturantes para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento:
3.1. Infraestrutura Profunda e Integrada
A modernização da infraestrutura física e digital é condição sine qua non para o avanço industrial. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) (2023) propõe investimentos em ferrovias, portos, redes elétricas e conectividade digital como eixo estratégico para a inovação. A criação de polos industriais com acesso logístico e energético eficiente deve ser prioridade.
3.2. Energia como Base da Soberania
A transição energética brasileira deve ser orientada por uma lógica de soberania e inovação. Conforme discutido por Cadernos Metrópole (2022), é necessário investir em fontes renováveis com capacidade de armazenamento, reduzir o custo da energia para a indústria e desenvolver tecnologias nacionais em baterias e transmissão de alta tensão.
3.3. Formação Técnica e Conhecimento de Processo
A valorização do ensino técnico e profissionalizante é essencial para a formação de uma força de trabalho industrial qualificada. A criação de centros de excelência em engenharia de produção e automação pode acelerar a difusão do conhecimento de processo, elemento central no modelo chinês.
3.4. Política Industrial de Longo Prazo
A formulação de uma política industrial robusta exige metas claras, instrumentos financeiros adequados e proteção estratégica. De Negri e Salerno (2014) defendem a articulação entre crédito direcionado, subsídios inteligentes e incentivos à inovação. A adoção do modelo da Triple Helix, conforme Etzkowitz e Leydesdorff (2000), que integra governo, universidades e empresas, pode fortalecer o ecossistema de inovação.
3.5. Ambição Global com Identidade Nacional
O Brasil deve fomentar uma cultura empreendedora voltada à exportação de tecnologia e à construção de plataformas digitais nacionais. A proteção da soberania digital e o posicionamento como líder em soluções sustentáveis são elementos estratégicos para consolidar uma identidade tecnológica própria.
Considerações Finais
O Brasil não precisa replicar o modelo chinês em sua totalidade, mas pode aprender com sua lógica de planejamento, articulação institucional e valorização da infraestrutura e do conhecimento técnico. O verdadeiro desafio brasileiro não é tecnológico, mas político e institucional: trata-se de construir uma visão de país que transcenda mandatos e ciclos eleitorais. Como alertam Wang e Kroeber (2025), os Estados Unidos falham ao tentar conter a China em vez de fortalecer sua própria base industrial. O Brasil deve evitar esse erro e investir na construção de capacidades internas, valorizando sua indústria, ciência e povo.
O Brasil que deveria ser é aquele que reconhece seu potencial, mobiliza seus recursos estratégicos e constrói um futuro com ambição, inteligência e inclusão.
Referências Bibliográficas
Cadernos Metrópole. Trajetórias da infraestrutura no Brasil. Revista da PUC-SP. São Paulo: 2022.
De Negri, J. A., & Salerno, M. S. Inovações, padrões tecnológicos e desempenho das firmas industriais brasileiras. Brasília: IPEA, 2014.
Etzkowitz, H., & Leydesdorff, L. The dynamics of innovation: Triple Helix of university-industry-government relations. Research Policy, 29(2), 109–123, 2000.
FAPESP. Indústria, inovação e infraestrutura. Biblioteca Virtual FAPESP. São Paulo: 2023. Disponível em: https://bv.fapesp.br/pt/683/industria-inovacao-e-infraestrutura/
Giesteira, L. F., Caliari, T., & Teixeira, F. O. Política industrial no Brasil: evidências empíricas em um contexto de mudanças estruturais (2007–2020). Revista de Economia Política, 42(2), 345–368, 2022.
Silva, J. H. F. (2022). Reflexões sobre política industrial e desenvolvimento na China. Cadernos de História da UFPE, 13(2), 45–60. Recife: 2022.
Wang, D., & Kroeber, A. (2025). The True Chinese Model: Beijing’s Enduring Formula for Wealth and Power. Foreign Affairs, Sept/Oct 2025.
