Desafios para uma Economia Pós capitalista, Inclusiva e Sustentável

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Silvana Parente

Doutora em Economia, Especialista em Desenvolvimento Regional e Micro finanças. Chefiou ETENE e implantou CREDIAMIGO no BNB. Foi Secretária de Planejamento do CE. É Diretora do IADH

O artigo analisa três dimensões que estruturam o impasse contemporâneo — a emergência ambiental, a ampliação das desigualdades e o desgaste das instituições — para mostrar como esses vetores evidenciam o esgotamento do capitalismo financeirizado. A autora revisita a trajetória do sistema, do equilíbrio relativo do pós-guerra ao predomínio do rentismo, destacando o endividamento como engrenagem central da economia atual e como mecanismo de subordinação social. Amparado em autores como Maurizio Lazzarato, Anselm Jappe, Thomas Piketty, Celso Furtado e Georgescu-Roegen, o texto articula a crítica ao regime financeiro com os limites ecológicos do planeta, questionando a crença no crescimento econômico ilimitado em um mundo de recursos finitos. Ao apresentar contribuições de Kate Raworth, Mariana Mazzucato e Ladislau Dowbor, o artigo aponta caminhos para uma reorganização da economia que coloque a vida, a justiça distributiva e a sustentabilidade no centro das decisões públicas, convidando economistas e gestores a reorientar o debate para além dos limites impostos pela lógica do capital.


Estamos diante de três grandes problemas da humanidade: a degradação ambiental, as desigualdades econômicas e sociais e o colapso das instituições com ameaças à democracia e à paz.

Os países e as pessoas estão endividados, o lugar e circunstância ao nascer determina a sobrevivência das pessoas, o planeta está em chamas. Parte do mundo está em guerra fria, outra parte refém desta guerra fria. As religiões são manipuladas pela guerra do poder político. O avanço do fascismo e da extrema direita ameaçam a democracia. Assim as instituições que deram sustentação ao equilíbrio do mercado, famílias, comunidades, religiões e governos estão colapsadas e dominadas pelas forças do mercado sem energia para remover as ervas daninhas.

Como a humanidade pode se mover para a transição de um capitalismo selvagem, financeiro e desumanizado para uma sociedade pós capitalista, mais igualitária, solidária e sem destruir o planeta? O objetivo deste artigo é provocar o pensamento dos economistas para refletir sobre a insustentabilidade do modelo econômico hegemônico atual e sua incapacidade de reverter as mazelas da pobreza, desigualdades e depredação do planeta, para, em seguida, vislumbrar uma perspectiva de transição para uma nova economia, à luz de uma consciência planetária e humanista.

Primeiro vamos rever a trajetória do capitalismo. Quando a Guerra Fria acabou, os mercados e o pensamento pautado pelo mercado passaram a ter um prestígio sem igual. Nenhum outro mecanismo de organização da produção e distribuição de bens tinha se revelado tão bem-sucedido para gerar prosperidade. O modo de produção capitalista teve na sua base o avanço tecnológico, a revolução energética e o aumento da produtividade. 

Um número cada vez maior de países no mundo passou a adotar mecanismos de mercado na gestão da economia. Mas vale registrar que a prosperidade do pós-guerra foi também fruto da forte participação das iniciativas públicas. O Estado assegurou sistema tributário progressivo e políticas redistributivas, investiu em infraestruturas e sistemas públicos de pesquisa, saúde e educação. O capitalismo era equilibrado.

Ao final dos anos 1970, a economia mudou e em vez de produzir bens e serviços passou a produzir instrumentos financeiros, encerrando a fase do capitalismo equilibrado e iniciando o capitalismo rentista e depredador. O desemprego cresceu em toda parte por conta do salto de produtividade decorrente da revolução informática e novas tecnologias. Em paralelo, esse processo foi acompanhado do desmantelamento do Estado de bem-estar social.

No tabuleiro global ocorria o mesmo, ilhas de bem-estar e democracia no meio de um oceano de guerras e de miséria, instabilidade nos sistemas econômicos nacionais, mesmo nas economias mais prósperas e de países em desenvolvimento. Essas duas tendências se repetem até hoje, em conjunto, como dois lados da mesma moeda: prosperidade para uma parte da população, marginalização para outra parte. 

Com a revolução digital recente, conectividade global, dinheiro virtual, a apropriação do produto social se dá pela intermediação financeira, do conhecimento, das comunicações. Em vez de fábricas, temos plataformas em escala planetária que exploram as pessoas através do endividamento. A atividade industrial permanece, mas o eixo da dominação e controle mudam do assalariamento para o endividamento, do capitalismo produtivo para o capitalista rentista, de novas formas de explorar o trabalho: trabalho terceirizado, a pjotização (contração de pessoas jurídicas), prestadores de serviço de plataformas digitais. No entanto, a mais forte apropriação se dá pelo endividamento em todas as suas formas. 

Maurizio LAZARATO em O Governo do Homem Endividado faz uma severa crítica ao ordenamento neoliberal, sob a ótica do endividamento. Segundo ele a dívida é a técnica mais usada para subordinação do homem no mundo neoliberal, o que nos leva a revogação de conquistas sociais, o achatamento salarial, desemprego, privatizações, a subserviência do sistema jurídico, a insignificância dos mecanismos de representação, tudo isso são elementos do ordenamento neoliberal. Que liberdade tem um indivíduo endividado? Um desempregado, um trabalhador com salário-mínimo sem acesso à saúde e educação para sua família?

A divisão de classe não passa mais pela oposição entre capital e trabalho, mas entre credores e devedores. A captura da mais valia não passa apenas pelo lucro. A dívida é a encarnação do capitalismo financeiro, é o motor do capitalismo rentista.

A estratégia neoliberal recente é a substituição de direitos sociais (educação, saúde, aposentadoria), pelo acesso a crédito, pelo direito de contrair dívidas. Esse processo de individualização das políticas sociais desencadeia uma mudança radical no estado social ou estado de bem-estar social.  O estado não consegue ter folga fiscal para fazer políticas públicas. Não é mais o sistema financeiro que ajuda o setor produtivo, mas o sistema produtivo a serviço da acumulação financeira. Aí está uma das causas da polarização entre esquerda e extrema direita. 

Os valores de mercado passaram a desempenhar um papel cada vez maior na vida social. A lógica da compra e venda não se aplica apenas a bens materiais, ela passou a governar a vida como um todo. Isso significa que tudo tem um preço? Queremos viver assim, será o mundo uma mercadoria?

Anselm Jappe em seu livro As aventuras da Mercadoria retrata os debates teóricos históricos em torno do fim do capitalismo clássico e, ao mesmo tempo, o fim do marxismo tradicional, voltando a questionar se será o mundo uma mercadoria? 

Não se trata apenas de discutir a respeito de certas coisas como a cultura, o corpo humano, os recursos naturais, as capacidades humanas serem reduzidas à compra e venda, como na prática passaram a ser. Não se trata apenas de uma crise moral que ocasiona inúmeros movimento sociais de lutas identitárias como gênero, raça e orientação sexual. Segundo Jappe, trata-se da crítica da mercadoria, do trabalho abstrato e do dinheiro que, além de ser uma premissa filosófica do capitalismo, continua em plena atualidade. A mercadoria, o dinheiro e o valor são coisas óbvias que se encontram na nossa vida social, esquecidas em sua origem. Mas a discussão atual ocorre com respeito aos investimentos, salários, preços e à mais-valia, ou seja, quando se discute a distribuição desses valores entre as pessoas.

Para que sejam trocados entre si é necessário que os diferentes valores tenham algo em comum e essa substância comum é o trabalho que as criou.  Na vida real, as pessoas não têm consciência de que os valores das coisas nada mais são que representações de uma unidade de trabalho. Daí o caráter social do trabalho, a troca dos produtos entre os homens, enquanto divisão dos seus trabalhos e circulação dos resultados é o que os liga entre si e constitui a sua sociabilidade. O dinheiro passou a ser o mediador das atividades sociais. Na sociedade capitalista, o dinheiro tornou-se o único ou mais relevante nexo entre as relações sociais. O laço social já não consiste nas relações sociais propriamente ditas, passa a ser algo que qualquer pessoa pode adquirir ou perder.

Hoje, vivemos numa época em que os valores de mercado passaram a governar nossas vidas. saúde, educação, segurança pública, justiça, proteção ambiental, procriação, eleição, passaram a ter seus valores definidos pelo mercado. Aqui reside o perigo de uma sociedade em que tudo está à venda, as consequências são a desigualdade e a corrupção. Por isso desigualdade e corrupção fazem parte do capitalismo contemporâneo. À medida que o dinheiro passa a comprar cada vez mais influência política, bom atendimento médico, educação de qualidade, a questão da distribuição de renda e da riqueza passam a ser relevantes. O trabalho que foi esquecido das relações sociais em prol do dinheiro precisa voltar a ter relevância. 

A ênfase na desigualdade aparece forte nos estudos de PIKETTY (2021) que mediu as desigualdades de renda e riqueza entre as nações. Ele prevê que os privilégios concedidos às grandes fortunas levarão a uma grande crise política e que a redução das desigualdades depende mais da política do que da economia.

Voltando ao segundo desafio com respeito à questão ambiental. O progresso até aqui alcançado já ultrapassou os limites planetários comprometendo o progresso futuro. O paradigma econômico hegemônico ainda separa o sistema produtivo da base material e energética que o sustenta, o que não tem base científica. Quando muito há estudos sobre formas de precificar, negociar e compensar impactos ambientais, pressupondo que ecossistemas são substituíveis. 

A esse respeito cumpre registrar o esforço do Relatório TEEB (The Economics of Ecosystems and Biodiversity) publicado em 2008, sob a liderança do economista Pavan Sukhdev e com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Ele buscou traduzir os valores ecológicos em termos econômicos. O principal objetivo do relatório foi demonstrar que a degradação ambiental não é apenas uma crise ecológica, mas também uma ameaça significativa à estabilidade econômica global. 

Entretanto, sob uma análise crítica da economia ecológica, as propostas do referido relatório, tais como Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA), reformas de subsídios prejudiciais e mercados de biodiversidade, perduram uma visão reducionista da natureza, tratando-a como “capital natural”, e ignoram desigualdades estruturais. Essa abordagem reforça a mercantilização da natureza, tratando-a como um recurso transacionável, o que aprofunda a lógica que originou a crise ecológica. Suas soluções permanecem limitadas pela lógica capitalista, ignorando causas estruturais como desigualdade, consumismo e extrativismo.

O relatório também destaca o crescimento de mercados de produtos sustentáveis, como agricultura orgânica e madeira certificada, que permitem aos consumidores expressarem suas preferências por proteção ambiental. No entanto, surgem questões sobre os limites biofísicos para o crescimento desses mercados e quem realmente se beneficia deles. Além disso, a criação de mercados de bens “sustentáveis” ilimitados pode ser incompatível com os desejos ilimitados dos consumidores.

A teoria econômica cria a ilusão de que é possível atingir o mesmo padrão de consumo para todas as pessoas do planeta igualando aos dos países desenvolvidos. O planeta não suportaria. Segundo FURTADO (2024), num mundo com recursos finitos/limitados, o crescimento infinito/ilimitado é uma impossibilidade lógica e prática. O crescimento econômico é duplamente limitado: em primeiro lugar, nem todos os recursos são renováveis. Em segundo lugar, o sistema industrial tem consequências irreversíveis para o ambiente físico, o que comprometem a habitabilidade do planeta. 

O pensamento de FURTADO soma-se ao de autores da Economia Ecológica, a exemplo de GEORGESCU-ROEGEN (1971), o qual redefine a economia como um subsistema entrópico inserido em um ecossistema finito. Segundo ele, o processo econômico representado como um fluxo circular entre produção e consumo altera o ambiente de forma cumulativa e, por sua vez, é influenciado por essas alterações. Ele demonstra que a entropia (medida pela desordem termodinâmica) inviabiliza a perpetuação do modelo industrial, desconstruindo a ilusão de crescimento sustentável.

A perda de biodiversidade não só ameaça ecossistemas, mas agrava e amplia desigualdades sociais, atingindo especialmente as populações mais vulneráveis. A janela para ação é estreita, exigindo integração de economia, política, ecologia e valores tradicionais de comunidades locais.

Além disso, FURTADO defendia um projeto de desenvolvimento que ultrapassasse o mero crescimento econômico, buscando a melhoria da qualidade de vida, a igualdade social, ressaltando a importância do planejamento estatal para um crescimento autossustentado e justo.

Voltando ao cerne da questão, como resgatar a função social da Economia, observando os limites planetários? Qual o papel do Estado em direção a uma transição econômica e ecológica justa? 

Trago três contribuições propositivas as quais resumimos a seguir:

A economista britânica Kate RAWORTH apresenta em seu texto Economia Donut – uma alternativa ao crescimento a qualquer custo (2019), um modelo que redefine parâmetros de mensuração econômica e aponta para a necessidade da ampliação do olhar sobre o atual desenvolvimento econômico no século XXI. 

Apresentado em formato de “rosca”, a essência do Donut considera os seguintes elementos:

  1. Teto ecológico: ou limites planetários, caso ultrapassados ameaçam atividades humanas e põem em risco as interações socioecológicas, sendo eles: mudança climática, acidificação dos oceanos, poluição química, carga de nitrogênio e fósforo, retiradas de água doce, conversão de terras, perda de biodiversidade, poluição do ar, destruição da camada de ozônio;
  2. Alicerce social:  são os elementos básicos para a sobrevivência humana, os quais deveriam ser garantidos à população, sem privações tais como água, alimento, saúde, educação, renda e trabalho, paz e justiça, voz política, igualdade social, igualdade de gênero, habitação, redes, energia;
  3. O espaço seguro e justo para a humanidade: o espaço entre os círculos “teto ecológico” e “alicerce social” representa a zona de seguridade para as pessoas e para o planeta. Uma nova agenda econômica deve adotar políticas e pautas que garantam acesso a direitos básicos à população e tenha constante regulação, monitoramento e mitigação de modo a não ultrapassar os limites ecológicos planetários.

Ao seguir a “bússola” do Donut a autora nos traz a inovação na representação da interação de relações econômicas baseadas na sustentabilidade socioecológica, na regeneração, na distribuição equitativa e acesso a recursos. O novo modelo prioriza relações de restauração e renovação dos ciclos de vida, elevando o bem-estar humano e planetário desde a perspectiva local até o âmbito global (RAWOARTH, 2019). 

Alcançar o espaço seguro e justo para a humanidade requer um esforço conjunto de diferentes setores da sociedade: empresas, associações, terceiro setor, cidadãos, sobretudo exigindo uma forte atuação do Estado nessa direção.

A segunda contribuição vem da economista Mariana MAZZUCATO (2014), no livro O estado empreendedor. Ela parte de uma batalha discursiva que envolve o questionamento do papel do Estado na condução da economia. Desfaz a imagem que contrapõe à iniciativa privada como força inovadora versus o Estado, como um símbolo da paralisia e ineficiência. Ela mostra exemplos nos quais o Estado está na origem dos investimentos mais audaciosos em tecnologias.

O desenvolvimento da indústria biofarmacêutica, tecnologias revolucionárias como a internet, o GPS, telas sensíveis ao toque, disco rígido, microprocessadores, semicondutores, bateria de lítio, telas LCD e outras tecnologias de comunicação, foram desenvolvidas graças a investimentos feitos pelo Estado. Ao assumir o risco e a verdadeira incerteza no financiamento das inovações, o Estado se comporta como um agente marcado pelas características do empreendedorismo. Apresentar o Estado empreendedor é, conforme a autora, uma das melhores maneiras de defender, proativamente, sua presença e tamanho. 

Na teoria econômica convencional, as intervenções do Estado são admitidas enquanto formas de corrigir as falhas de mercado (STIGLITZ 2004 e 2006), em situações, por exemplo, onde as características de bem público e das externalidades implicam num retorno social maior do que o privado. Entretanto, em vez de analisar o papel ativo do Estado sobre esse ângulo, MAZZUCATO advoga a necessidade de se construir uma teoria do papel do Estado na formação e criação de mercados, tratando assim de garantir que os modelos de negócios levem a um crescimento mais inclusivo e sustentável.

No que se refere à inovação, é a intervenção do Estado que dinamiza a capacidade e a disposição do empresariado, criando os espaços e as perspectivas de investimento e mercado. Setores já consolidados e outros ainda emergentes, como os de tecnologia da informação e comunicação, farmacologia, biotecnologia, nanotecnologia e tecnologias verdes, tiveram o Estado na liderança dos processos, incentivando a participação de atores econômicos e científicos. 

Segundo MAZZUCATO, 

para construir um crescimento inclusivo e sustentável, precisamos de investimento público impulsionado pelo conceito de bem comum e novos tipos de relações público-privadas que são estruturadas sob condições que criam um ecossistema mais simbiótico e não-parasitário. E temos que trazer grupos de cidadãos e sindicatos para a mesa de discussão, para garantir que não apenas tenhamos uma transição mais justa, mas que também haja vozes diferentes para definir que tipo de sociedade queremos

Com a globalização, os avanços na tecnologia e as preocupações com a sustentabilidade, o governo precisa tornar-se um ajudante e criar um ambiente que seja benéfico para o desenvolvimento da economia. Isso envolve estimular a inovação, promover a competitividade, garantir a inclusão social e adotar políticas sustentáveis.

No Brasil, com altos níveis de pobreza e desigualdades, é fundamental que o Estado se concentre na criação e distribuição de valor, investindo e inovando para encontrar novas maneiras de ativar as economias territoriais e fornecer serviços públicos a populações vulneráveis na economia informal. Mas esses serviços públicos devem fazer parte de um sistema de inovação social e tecnológica, com enfoque territorial.

Em seu livro Convergência para Inclusão, PARENTE (2018) demonstra como as políticas de Desenvolvimento Territorial, Economia Solidária e Microfinanças geram possibilidades de novas trajetórias diferentes da ideologia neoliberal e do estatismo exacerbado, ambas atualmente incapazes de responder ao desafio contemporâneo de um desenvolvimento mais humano, justo e sustentável.

A terceira contribuição relevante está nas propostas de Ladislau DOWBOR (2022) em seu livro Resgatando a Função Social da Economia, com ênfase na inclusão produtiva. Segundo ele, existe uma imensa subutilização dos fatores de produção: mão obra subutilizada, terra subutilizada, capital esterilizado em patrimônios familiares e subutilização do potencial científico e tecnológico. Mas também há a subutilização das políticas públicas. No nosso caso, ideologias ultrapassadas como o Estado Mínimo, ajuste fiscal, estão paralisando o País.

Ele agrupa suas propostas nos seguintes eixos:

  1. Dinamização da economia pela base: Se temos ao mesmo tempo necessidades não atendidas e subutilização de capacidades, como por exemplo, fome e exportação de alimentos, déficit habitacional e capacidade ociosa das construtoras, é porque não tem renda (demanda) para comprar. Colocar recursos na base da sociedade, por meio de renda básica ou renda mínima (o bolsa família é um exemplo), da elevação do salário-mínimo, garantia de preços mínimos para o agricultor, dinamiza as empresas, amplia empregos e não gera inflação. Dizer que se as pessoas tiverem uma renda básica vão se encostar, é um preconceito;
  2. Assegurar investimentos em políticas sociais: O bem-estar da família não depende apenas do dinheiro no bolso, que paga as contas, mas também depende do acesso a bens de consumo coletivo: escolas, hospitais, parques, segurança. Não se compram rios limpos e ruas arborizadas. Temos que resgatar a dimensão pública do acesso universal à saúde, educação e sustentabilidade ambiental. Para o Brasil esse resgate é de fundamental importância pois constitui uma poderosa ferramenta de redução das desigualdades. Qualificar políticas sociais como gastos e colocar-lhe um teto, enquanto recursos transferidos para os grupos financeiros são lucros e dividendos, é um absurdo;
  3. Ampliar investimentos em infraestrutura: Igualmente importante são os investimentos em sistemas de transporte público, abastecimento de água, tratamento de esgotos, energia barata, rede de internet, os quais melhoram também a produtividade das empresas. A reorganização das infraestruturas no país pode ser fonte de um conjunto de iniciativas intensivas em mão de obra e gerar muitos empregos;
  4. Políticas públicas de emprego: Considerando a subutilização da mão de obra, ficar esperando que os mercados resolvam não faz sentido. Precisamos de políticas públicas ativas de emprego, em particular iniciativas municipais já que a mão de obra é local. São muitos os exemplos, como operação praia limpa, manutenção urbana, manutenção de estradas, arborização, limpeza, esgotamento sanitário, serviços ambientais ecossistêmicos. Aqui também entra a oferta de microcrédito produtivo orientado para aproveitar o potencial produtivo da população. Ao dinamizar recursos parados, a produção é estimulada, o acesso a bens públicos coletivos reduz os custos de produção de todos os setores e o melhor aproveitamento da mão de obra tanto aumenta o bem-estar das famílias como a produtividade sistêmica da economia; e
  5. Políticas tributária, fiscal e creditícia distributivas: A política de inclusão produtiva passa pelo uso inteligente do dinheiro. O Brasil não é um país pobre, é um país onde os recursos financeiros são desviados para atividades improdutivas, as riquezas naturais para exportação, os bens públicos para grupos privados. O problema central é a deformação da incidência de carga tributária progressiva e a austeridade da política fiscal que privilegia grupos de maior renda e intermediários, drenando a economia em vez de fomentá-la.

A política tributária no Brasil é injusta improdutiva e ineficiente. A reforma tributária aprovada altera apenas os impostos do consumo, ainda falta reformar a tributação sobre a renda, isenção até 5 salários é um bom exemplo, a taxação da renda sobre dividendos e a riqueza, assim como, taxação sobre grandes fortunas e heranças. 

O dinheiro que está nos bancos é nosso, da população e das empresas, não é dos bancos. O ideal é que as instituições financeiras que administram nossos recursos têm de fazê-lo de forma útil para a sociedade. O Sistema Financeiro Nacional em vez de promover o fomento da economia transformou-se em um sistema de drenos financeiros, travando o consumo das famílias, o investimento empresarial e o investimento público, através do chamado serviço da dívida pública.

O Banco Central precisa regular nesse sentido e tem um papel importante a ser resgatado. É necessária uma maior utilização dos bancos públicos de fomento, os quais tem uma grande capacidade de gestão produtiva e redistributiva de recursos financeiros.

Diante do acima exposto, a democracia é o pilar para se sair desse ciclo vicioso. Sabemos da fragilidade da nossa democracia, da apropriação do Estado pelos interesses privados nacionais e internacionais, das elites e privilegiados. O mesmo processo gera erosão da nossa soberania. Sabemos que o mundo é interdependente, mas se não tiver um governo nacional capaz de negociar os interesses do País não avançaremos.

A democracia não se sustenta apenas no voto, necessita de mecanismos de participação e acompanhamento permanente. E isso exige uma forte descentralização do processo decisório, em particular no nível municipal. É no território/município que a população conhece suas carências e oportunidades, e as formas de enfrentá-las e aproveitá-las. Mas isso precisa ser feito com mecanismos modernos de controle financeiro e de resultados, no quadro da gestão descentralizada em rede. 

Somente com o aperfeiçoamento da democracia seremos capazes de impedir que a economia ultrapasse os dois limites: limites planetários e da dignidade humana.

Referências:

DAWBOR, Ladislau. Resgatar a Função Social da Economia. São Paulo, Editora Elefante, 2022. 

FURTADO, Celso. O Mito do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Ubu, 2024.  

GEORGESCU-ROEGEN, Nicholas. The Entropy Law and the Economic Process. Harvard University Press, 1971. 

[Link](https://www.hup.harvard.edu/catalog.php?isbn=9780674257801). 

Jappe, Anselm. As Aventuras da Mercadoria: uma nova crítica do valor, Antígona, Lisboa. 2006. 

LAZZARATO, Maurizio. O Governo do Homem Endividado. São Paulo, N-1 Edições, 2017.

MAZZUCATO. Mariana. O estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs setor privado. Cia das Letras, 2014.

PARENTE, Silvana, Convergência para Inclusão: Economia Solidária, Desenvolvimento Territorial e Microfinanças, São Paulo, Editora Dialogar, 2018.

PIKETTY, Thomas. O Capital do Século XXI. Rio de Janeiro, Editora Intrínseca, 2021.

RAWORTH, Kate. Economia Donut – sete formas de pensar como um economista do século XXI. Primeira Edição. Rio de Janeiro, Editora Zahar. 2019.

SAMDEL, Michael J. O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado. Civilização Brasileira, 12ª. Edição, RJ. 2020.

STIGLITZ, Joseph. Rumo a um Novo Paradigma, São Paulo Editora Futura 2004.

STIGLITZ, Joseph. Livre Mercado para todo? São Paulo, Editora Campos 2006.

TEEB. The Economics of Ecosystems and Biodiversity: Interim Report 2008. Disponível em: https://www.teebweb.org/.  Acesso em: 25 mai. 2025.

 

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