Célio Fernando Bezerra Melo
Economista, atua como vice-presidente da Academia Cearense de Economia. Atualmente é sócio da BFA Investimentos, Consultor do MEC/Nações Unidas. Experiência profissional abrange vice-presidente da APIMEC-Brasil, consultor do Banco Mundial. Prêmios Nacionais: Profissional de Investimentos, Especial ESG e Instituto Chico Mendes.)
Lauro Chaves Neto
Economista, Mestre em Administração e PHD em Desenvolvimento Regional. Professor Adjunto da UECE, Consultor, Conselheiro Federal de Economia e Assessor Econômico da FIEC. Foi Presidente do CORECON e do IBEF.
O artigo analisa a estratégia recente de desenvolvimento do Ceará, baseada na economia das conexões, articulando educação, inovação, infraestrutura e redes institucionais. A abordagem mostra que o avanço do estado não decorre apenas de obras ou indicadores, mas da capacidade de integrar atores, políticas públicas e conhecimento. A partir dessa perspectiva, o texto discute limites e desafios de uma agenda que busca ampliar oportunidades, reduzir desigualdades e fortalecer a posição do Ceará em um cenário nacional marcado por disputas e exigência crescente de cooperação. A ideia central é incorporar a conectividade econômica global à estratégia estadual, entendendo os Hubs como fase inicial de criação de valor e as conexões como responsáveis pela remuneração dos investimentos e sustentação das operações. A literatura indica que infraestrutura e redes de inovação estruturam estratégias industriais, em uma progressão que parte dos Hubs, avança para conexões e pode alcançar integrações mais duradouras (Porter, 1998; Hall e Soskice, 2001). O objetivo é apresentar a Economia das Conexões como eixo da política de desenvolvimento industrial, articulando infraestrutura, arranjos produtivos e governança para sustentar trajetórias de longo prazo.
Palavras-chave
desenvolvimento regional, economia das conexões, hubs, infraestrutura, inovação, Ceará.
Abstract
The central idea of this work is to contribute to the concept of the state development strategy in Ceará through an action of global economic connectivity. The discussion has emphasized the first phase of value creation through structuring investments, the Hubs. However, it is through connections that investment is remunerated and operations are sustained, considering the economic flows generated. The literature on economic development indicates that infrastructure and innovation networks form the basis upon which industrial strategies are built, suggesting a progression in which Hubs serve as support points that generate connections that in turn evolve into more permanent integrations (Porter, 1998; Hall and Soskice, 2001). Thus, the objective is to build the Economy of Connections as an industrial development strategy.
Introdução
Rever a estratégia estadual de desenvolvimento implica considerar uma ação de conectividade econômica global. Atualmente, a discussão tem se concentrado na primeira fase de criação de valor dos investimentos estruturantes, os Hubs. O Hub é um ponto de apoio necessário, mas são as conexões que remuneram os investimentos realizados e sustentam os gastos de manutenção e operação diante do fluxo econômico gerado.
O conceito de Economia das Conexões busca reposicionar o desenvolvimento industrial do Ceará em uma lógica sistêmica e interconectada. A proposta articula Hubs estruturantes, conexões econômicas e integrações institucionais, sugerindo uma progressão que ultrapassa a infraestrutura física e alcança governança e inovação. Este artigo avalia essa abordagem, identificando seus méritos, limitações e potencial de aplicação.
O desenvolvimento é estruturado em fases: inicia nos Hubs, evolui para as conexões e, por fim, alcança as integrações, que tornam mais perenes as relações econômicas estabelecidas. As integrações tratam da melhoria do ambiente de negócios e incluem tratados como o Mercosul e a União Europeia, que integram economicamente regiões distintas ao estabelecer livre comércio e aprimorar processos aduaneiros. Enquanto Hubs e conexões se aproximam da noção de infraestrutura, as integrações se referem à superestrutura, envolvendo tratados, leis e normas no contexto do novo desenvolvimento. A abordagem aqui apresentada foca especificamente na Economia das Conexões como eixo da estratégia industrial.
A proposta encontra sustentação em autores como Porter, Hall e Soskice e Castells, que oferecem bases para compreender competitividade regional, sistemas institucionais e dinâmica em rede. A tríade Hubs, conexões e integrações é coerente com a literatura sobre clusters industriais, redes de inovação e plataformas digitais. Apesar disso, o conceito de Economia das Conexões ainda carece de definição operacional e indicadores próprios.
A ideia de infraestrutura como base da competitividade regional pode ser articulada a partir de Porter, que destaca mecanismos de apoio à cadeia de valor como elementos que fortalecem clusters industriais. Essa visão reforça que Hubs não são apenas estruturas físicas, mas elos capazes de conectar capacidades produtivas a mercados. Do mesmo modo, a literatura sobre variedades de capitalismo mostra que diferentes sistemas institucionais influenciam a governança de redes de inovação e a formação de ecossistemas produtivos, o que incide diretamente sobre a viabilidade das conexões.
Hubs como fase inicial da estratégia
Os Hubs representam o ponto de partida da estratégia ao oferecer infraestrutura para a criação de valor industrial. No caso do Ceará, destacam-se o Hub Portuário do Pecém, o Hub Aéreo e o Hub de Telecomunicações. Cada um deles amplia a inserção do estado em redes internacionais, fornecendo acesso a mercados, rotas logísticas e sistemas de informação.
Como pontos de apoio, os Hubs reduzem custos de transação, tornam o território mais atrativo para investimentos e criam condições para novos arranjos produtivos. Ainda assim, sua eficácia depende do desenvolvimento posterior das conexões, que transformam essa infraestrutura em fluxo econômico contínuo.
Conexões como etapa de geração e sustentação de valor
As conexões ampliam os fluxos econômicos que remuneram os investimentos feitos nos Hubs. São elas que garantem a circulação de mercadorias, informações, pessoas e serviços, ativando cadeias produtivas e serviços correlatos.
No Ceará, isso se torna evidente quando a movimentação no Porto do Pecém gera demanda por serviços logísticos, aduaneiros, financeiros e tecnológicos. O mesmo ocorre com o Hub Aéreo ao estimular turismo, comércio e conexões internacionais. As conexões sustentam a dinâmica econômica criada pelos Hubs, assegurando sua viabilidade e ampliando efeitos multiplicadores sobre a economia regional.
Integrações como etapa de consolidação
As integrações são a terceira fase e buscam garantir perenidade às conexões. Políticas institucionais, acordos comerciais, normas regulatórias e sistemas de governança têm papel decisivo. Integrações como Mercosul e União Europeia, acordos bilaterais e melhorias internas no ambiente de negócios ajudam a consolidar fluxos econômicos, reduzir barreiras e ampliar a previsibilidade para investidores.
As integrações operam como superestrutura ao criar condições jurídicas e normativas que estabilizam as relações econômicas geradas pelos Hubs e ativadas pelas conexões.
Economia das Conexões como eixo estratégico
A Economia das Conexões propõe que o desenvolvimento industrial não se limite à infraestrutura ou à atração de investimentos, mas incorpore redes, governança e inovação. A abordagem articula infraestrutura física, fluxos econômicos e arranjos institucionais. Seu eixo estratégico está na capacidade de integrar o território a redes internacionais e tornar mais estável a circulação de riqueza gerada pelos investimentos estruturantes.
Conclusão
O caso do Ceará mostra que investimentos estruturantes são essenciais para inserir o estado em circuitos globais. No entanto, são as conexões que garantem a remuneração desses investimentos e ativam a dinâmica produtiva. As integrações, por sua vez, conferem estabilidade e continuidade. A Economia das Conexões, enquanto eixo estratégico, oferece uma interpretação sistêmica que compreende o desenvolvimento como resultado da articulação entre infraestrutura, fluxos econômicos e governança.
Referências
Bresser-Pereira, Luiz Carlos. Desenvolvimento Econômico: Fundamentos da Política Econômica. Quadrante, 2004.
Castells, Manuel. The Rise of the Network Society. Wiley-Blackwell, 2010.
Hall, Peter A., Soskice, David. Varieties of Capitalism: The Institutional Foundations of Comparative Advantage. Oxford University Press, 2001.
Porter, Michael E. The Competitive Advantage of Nations. Free Press, 1998.
Rodrigue, Jean-Paul; Comtois, Claude; Slack, Brian. The Geography of Transport Systems. Routledge, 2017.
