A BOLA DE NEVE DO ENDIVIDAMENTO

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Silvana Parente

Doutora em Economia, Especialista em Desenvolvimento Regional e Microfinanças. Chefiou ETENE e implantou CREDIAMIGO no BNB. Foi Secretária de Planejamento do CE. É Diretora da ADECE.

RESUMO 

O texto examina os mecanismos que transformam o endividamento em um processo cumulativo, comprometendo famílias, empresas e governos. Ao relacionar juros, crédito e planejamento financeiro, o ensaio evidencia como decisões de curto prazo podem produzir efeitos persistentes sobre a capacidade de consumo, investimento e crescimento econômico. Mais do que descrever o problema, convida à reflexão sobre educação financeira, responsabilidade fiscal e sustentabilidade das finanças públicas.

Palavras-chave: endividamento; inadimplência; crédito; renda; políticas públicas.

O elevado endividamento das famílias brasileiras passou a ser tema relevante na mídia e o será nos debates da campanha eleitoral de 2026. Quais são as causas e mecanismos do elevado endividamento das famílias? Qual o impacto desse endividamento na renda futura das famílias e na sua qualidade de vida? Que consequências pode ter o elevado endividamento na economia? 

O objetivo deste artigo é analisar dados das pesquisas sobre o tema e trazer para o debate ideias de políticas públicas para reduzir o endividamento dos brasileiros.

Segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o percentual de famílias que relataram ter dívidas a vencer foi de 80,2% no mês de fevereiro de 2026. Esse indicador representa o maior nível de endividamento das famílias da série histórica desde 2010. 

Evidentemente, o endividamento por si só não é um problema, já que poderia representar ampliação de investimento e consumo pela melhoria na confiança da economia. Afinal, os principais indicadores da economia vão bem: menor taxa de desemprego da série histórica, inflação baixa, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e elevação da renda média e da massa salarial. 

Entretanto, uma luz vermelha acende ao analisar as causas e consequências do elevado endividamento. Atualmente, 29,6% das famílias endividadas são consideradas inadimplentes, por terem contas ou dívidas em atraso. Do total, 12,6% declararam não ter condição de pagar suas dívidas em atraso no próximo mês. No grupo com renda de até três salários mínimos, esses percentuais são ainda mais elevados: 38,9% e 18,6%, respectivamente. 

O percentual médio de comprometimento das dívidas está em 29,7% da renda, sendo que 20% dos endividados já comprometem mais de 50% de sua renda. Além disso, metade dos inadimplentes está com atraso superior a 90 dias. 

Segundo as modalidades de dívida, o cartão de crédito segue sendo o vilão, citado por 85% das famílias endividadas, seguido de carnês de loja (16%), crédito pessoal (12,3%), financiamento de casa (9,8%) e de carro (8,9%). 

Dados do Mapa da Inadimplência do Brasil, divulgados no fim de março pela Serasa, mostram que o número de inadimplentes aumentou 38% nos últimos dez anos, passando de 59 milhões para 81,7 milhões de pessoas. Em março, metade dos adultos estava com o CPF negativado. 

Segundo o Banco Central, houve elevação do custo do crédito em modalidades muito presentes no orçamento doméstico, como cartão de crédito rotativo, cartão parcelado e crédito pessoal não consignado. Essas são as linhas mais usadas justamente quando a renda corrente não basta para fechar as contas do mês. O rotativo do cartão voltou a subir e alcançou mais de 435% em fevereiro.

Dessa forma, estamos vivenciando uma situação perigosa. O aumento do endividamento vem acompanhado da elevação da inadimplência, com aumento dos juros devidos pelos tomadores, já extremamente elevados, o que vai incrementando o estoque total das dívidas e o comprometimento da renda futura. O tempo médio de comprometimento da renda já atingiu 7,2 meses. Isso significa que há famílias comprometendo metade de sua renda por mais de sete meses, destinando o fruto do trabalho quase que exclusivamente ao pagamento de dívidas. 

De acordo com pesquisa sobre comportamento do consumidor em Fortaleza, referente a abril de 2026, realizada pela FECOMÉRCIO Ceará, o comprometimento da renda do fortalezense alcançou o patamar de 42,8%, com endividamento médio de R$ 1.910,00 e prazo médio de oito meses para quitação. O crédito tem sido utilizado para cobrir despesas essenciais, como alimentação (61%), vestuário (25,4%), aluguel (24,8%) e saúde (24,1%). 

Paradoxalmente, a melhoria dos níveis de emprego e renda vem acompanhada do aumento do endividamento e da inadimplência, razão pela qual as pessoas não conseguem sentir a melhoria dos indicadores macroeconômicos. Dessa forma, eleva-se a renda média mensal, mas o poder de compra permanece o mesmo ou até se retrai, já que uma parcela ainda maior do salário é destinada ao setor financeiro. 

Não se trata apenas de uma prática ocasional de endividar-se para antecipar o consumo de um bem durável ou um desejo de consumo. Trata-se de uma prática corriqueira de consumir bens de primeira necessidade como estratégia de sobrevivência, ao comprar alimentos e remédios com cartão de crédito a prazo ou ao contrair um empréstimo para cobrir outro já inadimplente. 

O endividamento começa a comprometer o próprio consumo, motor da acumulação capitalista. Conforme matéria do Jornal Valor Econômico, em termos agregados, desde 2022 a renda das famílias tem crescido mais que o consumo das famílias no PIB, confirmando que parcela cada vez maior da renda das famílias está sendo transferida para o setor financeiro. O endividamento elevado reduz a propensão marginal a consumir, ao comprometer grande parcela da renda com o pagamento de dívidas e juros.

Na economia política, a dívida não significa igualdade e reciprocidade; ao contrário, as relações entre credores e devedores são assimétricas. A dívida tornou-se mecanismo de apropriação da renda do trabalho e da produção para a acumulação do capital financeiro. 

Maurizio Lazzarato, em seu livro O Governo do Homem Endividado, faz uma severa crítica ao ordenamento neoliberal sob a ótica do endividamento. Segundo ele, a dívida é a técnica mais usada para subordinação do homem no mundo neoliberal, levando à revogação de conquistas sociais, ao achatamento salarial da base da pirâmide dos trabalhadores, à precarização do trabalho, à subserviência do sistema jurídico e à insignificância dos mecanismos de representação. A divisão de classe não passa mais pela oposição entre capital e trabalho, mas entre credores e devedores. A dívida é o motor do capitalismo rentista. Que liberdade tem um indivíduo endividado, um desempregado, um trabalhador com salário mínimo ou um trabalhador informal, sem proteção social e sem acesso à saúde e educação para sua família? 

Segundo o filósofo Martin Hägglund, em seu livro Esta Vida, todas as questões espirituais de liberdade são inseparáveis das condições econômicas e materiais. Na filosofia, a dívida representa uma responsabilidade social seguida de culpa. O conceito de dívida não é apenas econômico, mas uma estrutura moral de culpa. Daí emergem os efeitos da dívida na saúde mental: estresse, ansiedade, raiva e depressão; e na saúde física: pressão arterial, frequência cardíaca, sistema imunológico, memória, humor e alterações de peso, levando a comportamentos prejudiciais como jogos de azar e consumo de drogas (harvarddfcu.org). Segundo a Serasa, 84% dos brasileiros declaram que problemas financeiros afetam sua saúde mental. Em pesquisa feita pela Quaest (G1), 29% dos entrevistados relataram ter começado a apostar para tentar pagar contas, e 27% buscavam renda extra. Entre os inadimplentes, 46% apostavam. 

Para reduzir o endividamento das famílias, políticas públicas precisam combinar medidas emergenciais com medidas estruturais, que vão desde programas de renegociação de dívidas com descontos e garantia do poder público até regulação financeira e do crédito, em especial quanto ao cartão de crédito rotativo e cheque especial, spreads bancários, regulação do mínimo existencial, limitação do estoque máximo de dívida na Lei do

Superendividamento e limitação de bets. Além disso, é preciso maior efetividade nos mecanismos de proteção ao consumidor, fortalecimento da renda e da proteção social para famílias de baixa renda, assistência psicológica, mentoria financeira e educação financeira. 

REFERÊNCIAS 

CNC. Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC). Disponível em: https://www.comercio.org.br/peic. 

G1. Pesquisa Quaest – Economia. Disponível em: https://g1.globo.com. Acesso em: 17 abr. 2026. 

HÄGGLUND, Martin. Esta vida. Lisboa: Temas e Debates, 2019. 

LAZZARATO, Maurizio. O governo do homem endividado. São Paulo: N-1 Edições, 2017. 

SERASA. Mapa da Inadimplência do Brasil. Disponível em: https://www.serasa.com.br/imprensa.

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