Adriano Sarquis Bezerra de Menezes
Funcionário do BNB há 48 anos, atuou em diversas funções, incluindo a chefia do ETENE. Entre 2011 e 2022, esteve cedido ao Governo do Ceará, onde foi diretor de Estudos Econômicos do IPECE e secretário executivo de Gestão da SEPLAG. Atualmente, é pesquisador do ETENE, com especialização em estudos regionais e finanças públicas.
RESUMO
O texto apresenta uma síntese das discussões realizadas no Seminário “Estratégias para Acelerar o Desenvolvimento Sustentável do Ceará”, promovido pela Academia Cearense de Economia. A análise destaca que, apesar dos avanços recentes em infraestrutura, diversificação produtiva e indicadores sociais, o Estado ainda enfrenta limitações estruturais que restringem um crescimento mais acelerado e sustentável. Entre os principais desafios estão a baixa produtividade, as desigualdades sociais, a concentração territorial do desenvolvimento e os entraves ao ambiente de negócios. O artigo enfatiza a importância de uma nova agenda estratégica baseada na inovação, no conhecimento, na modernização produtiva e na integração às cadeias globais de valor. Também ressalta o papel da educação, da política industrial e do fortalecimento das pequenas e médias empresas. Por fim, aponta as oportunidades associadas à transição energética, especialmente no campo das energias renováveis e do hidrogênio verde, destacando a necessidade de planejamento de longo prazo para consolidar o Ceará como referência em desenvolvimento sustentável.
PALAVRAS-CHAVE
desenvolvimento sustentável; Ceará; produtividade; inovação; políticas públicas.
Com base no pressuposto de que no cenário atual, caracterizado por grandes transformações mundiais, de natureza geopolítica, econômica e tecnológica, o estado do Ceará tem condições de assumir um maior protagonismo, com o objetivo de aproveitar as inúmeras oportunidades que esse novo ciclo de expansão das economias globais oferece, a Academia Cearense de Economia-ACE tomou a iniciativa de realizar no começo de maio deste ano o Seminário “Estratégias para Acelerar o Desenvolvimento Sustentável do Ceará”, reunindo representantes das empresas, academia e do governo. Essa iniciativa representou uma valiosa oportunidade para reunir os vários segmentos representativos da sociedade para discussão de um tema central: como construir um novo ciclo de crescimento econômico para o Estado, conciliando competitividade, inovação, inclusão social e sustentabilidade ambiental.
Em um primeiro esforço interpretativo das idéias discutidas no Seminário, começarei a presente Nota sobre o evento procurando traduzir numa frase as diversas opiniões que permearam as quatro mesas temáticas do Seminário, que pode simbolizar o consenso que emergiu de forma subjacente das várias apresentações, que, certamente, pode ser considerada a principal mensagem do evento: o Ceará avançou em infraestrutura, diversificou sua base produtiva, fortaleceu setores estratégicos e apresentou melhorias relevantes em diversos indicadores sociais e econômicos. No entanto, ainda convive com limitações estruturais que dificultam uma trajetória mais acelerada de desenvolvimento, razão pela qual o estado precisa construir uma nova agenda de desenvolvimento, mais sofisticada, baseada no conhecimento, na produtividade, na maior equidade pessoal e espacial da riqueza estadual e na capacidade de inserção competitiva do Estado nas cadeias globais de valor.
Na mesa de abertura do Seminário, os empresários presentes enfatizaram a necessidade de fortalecer o ambiente de negócios e ampliar a competitividade da economia cearense. Para tanto, foram defendidas medidas voltadas à simplificação tributária, modernização regulatória, redução da burocracia e ampliação da segurança jurídica para investidores. Também foi destacada a importância de acelerar investimentos em infraestrutura logística, energia, conectividade digital e mobilidade urbana, elementos considerados fundamentais para elevar a eficiência produtiva do Estado.
Outro ponto destacado foi o papel estratégico da indústria na transformação econômica do Ceará. Um dos representantes desse importante segmento produtivo ressaltou que o processo de desenvolvimento sustentável exige uma política industrial moderna, capaz de estimular a inovação, agregar valor aos bens produzidos no Estado, com adensamento das cadeias produtivas e fortalecimento dos setores intensivos em tecnologia. Houve especial atenção para o potencial do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, visto como uma plataforma de integração internacional capaz de atrair novos investimentos industriais, energéticos e logísticos. A indústria possui forte efeito multiplicador sobre a economia e continua sendo um dos principais motores da geração de emprego, renda e inovação. Contudo, o avanço industrial e produtivo enfrenta diversos entraves históricos, destacando-se nesse conjunto o chamado “Custo Brasil”, os problemas de competitividade sistêmica, a elevada complexidade tributária, os efeitos das mudanças trazidas pela reforma tributária, além de obstáculos administrativos e burocráticos que dificultam investimentos.
Outro desafio estratégico destacado está relacionado ao aumento da produtividade da economia. Foi apresentado que o efeito dinâmico da produtividade aparece negativo no Ceará entre 2012 e 2023, indicando que os setores que mais absorveram mão de obra não foram os que apresentaram maior avanço de produtividade, fato que sugere dificuldades estruturais na transformação produtiva da economia estadual. Portanto, produzir melhor, com mais eficiência, menor custo e maior intensidade tecnológica, tornou-se condição indispensável para competir em uma economia global cada vez mais dinâmica. Isso envolve investimentos em infraestrutura, logística, inovação, qualificação profissional e modernização produtiva. Convém ressaltar que a melhoria de produtividade tem impacto relevante sobre o mercado de trabalho, pois economias mais produtivas tendem a gerar empregos de maior qualidade, elevar salários e ampliar a capacidade de inovação. Nesse contexto, torna-se essencial compreender que o desenvolvimento sustentável não depende apenas do crescimento econômico, mas da capacidade de produzir mais valor agregado, com maior eficiência e sofisticação tecnológica.
Para superar esse desafio torna-se necessária a construção de um ecossistema mais robusto de ciência, tecnologia e empreendedorismo, aproximando universidades, centros de pesquisa e setor produtivo. A ampliação dos investimentos em pesquisa aplicada, transformação digital, inteligência artificial e economia criativa foi apresentada como essencial para elevar a produtividade e criar oportunidades para a juventude cearense.
Além da produtividade, outro desafio estrutural importante da economia cearense é a desigualdade social e a baixa renda de sua população. O Ceará continua entre as menores renda do País. Em 2025, a renda domiciliar per capita permanecia cerca de 40% abaixo da média nacional e os seus indicadores de pobreza e extrema pobreza continuam elevados, com o Estado ocupando a terceira posição em pobreza e a segunda em extrema pobreza entre as unidades da federação. Essa situação representa um obstáculo relevante para o desenvolvimento sustentável do Ceará, razão pela qual foi enfatizada a necessidade de combinar expansão econômica com redução das desigualdades regionais e sociais. Nesse sentido, ganhou destaque o papel da educação como principal vetor de transformação estrutural, área em que o Ceará já possui experiências reconhecidas nacionalmente na educação básica, mas precisa avançar ainda mais na formação técnica, profissionalizante e universitária conectada às demandas da nova economia.
Também houve forte preocupação com o equilíbrio territorial do desenvolvimento. Muitos participantes ressaltaram que o crescimento econômico precisa alcançar o interior do Estado, reduzindo assimetrias regionais e promovendo maior integração produtiva entre as diferentes regiões cearenses. Foram defendidas políticas voltadas ao fortalecimento das vocações locais, do agronegócio sustentável, da economia do semiárido, do turismo regional e da infraestrutura hídrica. Além disso, foi destacada a necessidade de se ativar vocações regionais e fortalecer uma estratégia territorial de desenvolvimento. O Ceará possui realidades econômicas distintas entre suas regiões e municípios, exigindo políticas públicas adaptadas às características locais. O desenvolvimento não pode se concentrar apenas na Região Metropolitana de Fortaleza, sendo necessário ampliar a integração econômica e produtiva do interior.
O fortalecimento das pequenas e médias empresas também aparece como prioridade estratégica. Esses empreendimentos possuem grande importância para geração de emprego, renda e dinamização da economia estadual. Além disso, representam parcela significativa da atividade produtiva e da ocupação no Estado. Melhorar o ambiente de negócios para essas empresas significa ampliar oportunidades econômicas e fortalecer o empreendedorismo local.
O Ceará também precisa aproveitar as oportunidades associadas às novas economias. A transição energética apareceu como uma das janelas de oportunidades para o Ceará. O Estado possui vantagens competitivas excepcionais na produção de energias renováveis, especialmente eólica e solar, além de perspectivas promissoras na cadeia do hidrogênio verde. Se souber aproveitá-las de forma estratégica, o Ceará tem potencial para se consolidar como referência internacional em economia verde, atraindo investimentos, gerando empregos qualificados e ampliando sua inserção no mercado global de baixo carbono. Como se observa, muitas oportunidades surgem associadas à transição energética e à economia digital.
Portanto, o futuro já começou com a expansão das energias renováveis, especialmente o hidrogênio verde, a instalação de data centers, hubs de exportação de serviços digitais e novas atividades ligadas à economia do conhecimento. O Ceará reúne vantagens competitivas importantes nessas áreas, especialmente por sua localização estratégica, capacidade logística e potencial energético. No entanto, apesar desse cenário bastante promissor, o Estado enfrenta riscos relevantes. Um deles é a possibilidade de perda de competitividade industrial e produtiva diante das transformações em curso, por não dispor de um plano estratégico para se beneficiar dessa reorganização econômica mundial consolidando-se como hub energético, digital e logístico do Nordeste e do Atlântico Sul. Isso vai exigir planejamento territorial, coordenação institucional e políticas públicas integradas. O desenvolvimento contemporâneo não ocorre de forma espontânea, mas depende de capacidade estratégica, ambiente de negócios favorável e construção de vantagens competitivas duradouras.
Enfim, como mensagem principal desse Seminário da Academia Cearense de Economia pode-se afirmar que o Ceará reúne condições institucionais, econômicas e estratégicas para viver um novo ciclo de desenvolvimento, pois possui localização estratégica, infraestrutura logística relevante, capacidade empresarial, potencial energético e instituições consolidadas. Mas a sofisticação produtiva, com crescimento mais rápido e de qualidade, dependerá da capacidade de o Estado construir um projeto de longo prazo, baseado em planejamento, cooperação entre setor público e privado, estabilidade institucional e visão estratégica de longo prazo. O planejamento estratégico de longo prazo constitui o principal instrumento para que o desenvolvimento sustentável do Ceará seja construído de forma estrutural, sustentável e integrada, tendo como os principais pilares o conhecimento, a inovação e a inclusão social.
